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quinta-feira, 23 de julho de 2015

Trago



Depois de tanto tempo ouvindo todo tipo de besteira naquela conversa de família, levantou-se. Dirigiu-se à sua bolsa de couro marrom e abriu o zíper. Ficou alguns instantes parada olhando a caixinha que estava lá dentro. Depois de um tempo perdida em pensamentos e preocupações, enquanto segurava em seu colo a bolsa aberta, recobrou os sentidos e deparou-se, ainda, com o mesmo discurso machista que a fez se retirar daquela sala, e pior, ainda reproduzido pelas mulheres da casa! O misto de tristeza e vergonha que sentia ouvindo aquilo era tão intenso, que parecia abrir um enorme buraco em seu peito. Olhou mais uma vez a carteira de cigarros, pegou o isqueiro e partiu rumo à porta já colocando um cigarro na boca e, na frente, uma das mãos em forma de concha para abrigar a chama e protegê-la de quaisquer ventos que pudessem se aproximar.
Ao cruzar a sala, deu-se conta do silêncio que havia se instalado na casa... Talvez por isso ela gostasse tanto da fumaça. Vestígio de desdouro queimado.
JADE CANGUSSU

terça-feira, 21 de julho de 2015

Armani, agora, é o novo preto


Em resumo, tinha o Armani-434, o Armani-Nerd e, por último, o Armani-do-Martini. Tal como se fossem ternos Armanis, eu tive de organizá-los. E foi assim:

1. Armani-434: No dia seguinte sorri solenemente e tomei café da manhã com ele no trabalho. E no outro dia, sorri solenemente e sai do café antes que ele acabasse. Na sequência de dias, sorri solenemente até, apenas, sorrir. Isso mesmo! Embora Armani-434 ficasse me ligando e mandando mensagens todos os dias, viramos amigos de trabalho, bons amigos de trabalho, ainda que a minha perna tremesse com a presença dele, ainda que ele fizesse parte das minhas masturbações solitárias...

2. Armani-Nerd: A casa caiu pro Fael, o garoto que era promíscuo se apaixonou por um tipo paizão, e invés de Armani-nerd sair do ap., quem saiu foi Fael. Agora, dividimos o apartamento eu, Felipa e Armani-Nerd. Depois da surpresa que ele tentou fazer pra mim na festa da empresa, as coisas pareciam que se tornariam estranhas, e se tornaram mesmo! Mas os dias foram passando, Armani-Nerd estava iniciando um namoro com um rapaz. Com o tempo o constrangimento sumiu. E a melhor parte foi poder voltar inúmeras vezes ao shopping com ele e 'brincar no play' e dar uma passada no cinema. Também, jogar games em casa. E fazer maratona de Star Trek... ou seja, Armani-Nerd, embora fofo, foi pra Friendzone.

3. Amani-do-Martini: Depois do susto, pois ele, também, se chama Armani, enfim, algo parecia dar certo...

O vernissage de Armani-do-Martini estava lindo. Ele escolheu um tema para suas fotografias um tanto subversivo ao nosso relacionamento, o tema era amores perdidos – em que todos os ex-namorados dele permitiram a exposição de suas imagens – Eu disse que estava lindo o evento, não por isso! Estava lindo porque tinha Martini em abundância, o que me permitiu encher a cara, e mal me lembrar da cara daqueles quase quatrocentos homens. Importante lembrar que maior parte, obviamente, prestigiaria o evento.

Felipa que sempre fora solteira convicta, nesse dia arrumou um garoto. Ela dizia estar apaixonada e que dessa vez daria certo. No entanto, acho que o garoto não sabia conversar, ou se sabia, não gostava, talvez, se gostasse, não gostava era da gente. Ainda não sei o som da voz dele. Pois, vale lembrar, que para o meu ódio-fútil cultivado no coração, Felipa só esteve com ele dessa vez, até o fim desse vernissage eles terminam.

Armani-Nerd namorava Heitor, um cara que trabalhava de operário numa industria de metais. Ele fazia turnos e nunca ia aos eventos, festas ou reuniões que marcávamos. Parecia que eles viviam pra transar no quarto do apartamento. No entanto, no vernissage com centenas de homens que são ex do meu atual, no vernissage que eu seria “a garota mais triste que segurou um Martini”, como em Vanilla Sky. Enfim, nessa bosta desse vernissage cheio dos machos bonitos – que só a pele deles é mais bonita que meu corpo inteiro – o Armani-Nerd decidiu levar o Heitor. Mas, até o fim desse vernissage eles terminam.

Tirando o fato de ter acordado nu na mesma cama que Armani-do-martini, eu na verdade sequer consegui falar com ele durante o vernissage. Num canto ele estava de pé rodeado por ex-namorados. Acho que é dispensável descrever a minha cara. Mas sugiro pensar na cara da Britney Spears nos meet and greet da vida. Não sei se eu estava no quinto ou no décimo nono martini, quando decidi tentar chamar a atenção do Armani-do-martini. Todos os amigos estavam espalhados com seus machos pelo enorme salão do vernissage. Eu estava perto dos martinis, até que Armani-do-martini passou por mim e... eu perguntei:

- Não vai falar comigo? - acho que 'comigo' saiu num cântico de arroto.

- Calma, meu anjo! A noite vai ser sua. - Ele sorriu e saiu abrançando um de seus ex enquanto mostrava uma foto. E eu fiquei ~bebado~ contemplando minha desgraça!

Como qualquer outra pessoa que tomou entre cinco e dezenove martinis, eu estava um pouco sem a capacidade de conseguir julgar dignamente meus pensamentos. Mas, ao menos, consegui pensar que se eu não podia julgar bem meus pensamentos, pensar que ele tinha vergonha de mim, e que só me queria entre quatro paredes era loucura.
Decidi ir ao banheiro pra tentar vomitar, lavar o rosto, ou ficar jogando bolas de papel molhada no teto. Mas eu não estou contando essa história, porque ela foi bonita e fácil. Estou contando, porque tudo que é esquisito acontece comigo desde que me misturei com aquela cartomante! Acontece, que a caminho do banheiro me deparei com uma foto linda e sensual, era um dos ex-namorados de Armani-do-martini, obviamente. Quando essa noção de ex-namorado firmou em minha mente eu dei um grito escandaloso por Felipa. Como é de se imaginar, todos os convidados olharam pra mim, enquanto ela corria em minha direção seguida por seu boy, Armani-Nerd e o boy dele. Felipa e Armani-Nerd não puderam acreditar quando, também, olharam a foto, então eu prossegui:

- É o Armani-434. Isso é pegadinha de vocês?! - Eu me tremia todo, Felipa e Armani- Nerd me pediram pra eu me acalmar, enquanto me guiavam em direção a uma saída e pediam para que os boys esperassem.

Do lado de fora, Felipa explicava a gravidade da situação a Armani-do-martini, enquanto a dois metros Armani-Nerd me dava água. Armani-do-martini pediu que esperássemos cinco minutos e entrássemos, que ele teria algo a dizer a mim.

Quando abrimos a porta, os três, ouvimos Armani-do-martini dizer:

- E esse é o homem que, agora, quero comigo. Agradeço a todos vocês por terem me transformado em quem sou, pois foi o meu EU de agora que o conquistou...

Eu sorria incrédulo, no restante do discurso dele – que pouco já me fazia sentido, já que a minha insanidade bebum estava triste
 era com o fato de compartilharmos um ex, algo que pra mim era novo - a voz dele perdeu o som – pois Felipa e Armni-Nerd estavam perplexos. Dois palmos da porta do banheiro, euforicamente, Heitor e o boy da Felipa se beijavam.

CONTINUA...

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Mídia Vira-Lata

"Terceiro mundo se foi criado no exterior" (Renato Russo)


Que a grande mídia sempre provou, aos mais atentos, que um bom discurso bem elaborado pode mudar a opinião pública, todo mundo sabe! Mas nem sempre percebe. Assim, é comum a gente ler por aí manchetes tendenciosas; manchetes que fazem os preconceitos se reproduzirem; que tentam transformar o cenário político - tanto institucional, quanto social - numa fábula como a Torre de Babel. Dentre outras interferências e ruídos na evolução da sociedade. Mas o que poucos percebem é que essa influência pode ser um pouco além de nós! A cultura e a arte, também, sofre nesse esquema.
Toda mídia é tendenciosa e no fim é cada um mostrando apenas o que considera correto. Assim a grande mídia pode até ficar com o "genocídio intelectual" na sua conta. Entretanto mídias alternativas usam sua opinião como carro-chefe, ou usam ideias contrárias e extremas às da grande mídia, o que no fim é feito com base em valores pessoais, também. Mas o que andei observando pelos sites em que habito é que a arte e a produção cultural têm ido por água abaixo, o que no fim reflete nas políticas...
Isso mesmo! A grande mídia mostra apenas artistas campeões de venda e que se enquadram no que ela considera bom, ou em quem pode pagar por um horário. Enquanto a mídia alternativa só expõe artistas underground e, comumente, desprezam implícita ou explicitamente a cultura pop. Nessa etapa do texto, numa pausa reflexiva é natural que a gente compreenda a pluralidade cultural de uma sociedade e que a gente entenda que grupos extremos sejam necessários para uma manutenção e nivelamento das diferentes necessidades. Mas, agora, chegamos ao que eu, realmente, senti necessidade em dizer quando percebi a relação das mídias com a arte e a cultura aqui no Brasil: Pra ficar mais esclarecido, percebi isso em uma entrevista, que uma revista online de entretenimento - muito famosa - fez com a Anitta. O entrevistador mal  cumprimentou a cantora e em uma das primeiras declarações dela - algo como "(...) foi mais complicado, porque é meu primeiro clipe em plano-sequência(...)" - ele logo polemizou, com o bom e velho gosto pela síndrome de vira-lata, ao comparar o que Anitta se propôs a fazer com o que Madonna fez no clipe I'm Bitch Madonna - um clipe em plano-sequência, o que já foi feito por vários outros artistas, a exemplo, Spice Girls, Kylie Minogue e U2 - , com isso, inferindo que a brasileira estava imitando. Isso, porque a mídia de entretenimento sempre vendeu a imagem de uma cantora que imita as estrelas da cena pop internacional, desmerecendo o trabalho feito dentro do país.
Do fútil, ao útil: Pode parecer bobagem quando analisamos isso de primeira, porém quando temos dois extremos tentando demonstrar o que é bom ou ruim - embora ao meu ver, se tratando de arte, seja errado - é mais aceitável por compreendermos as noções de divergências socio-econômicas. Mas, quando mídias focadas em determinados assuntos começam a desmerecer nosso produto, só posso pensar em duas coisas: A primeira é a falta de preparo completo. Na segunda, maldade. Entenda bem, na primeira se os jornalistas estiverem preparados e obtiverem bom nível de conhecimentos gerais, seria importante levarem em conta as tendências que os nichos seguem. Dizer que um artista imita o outro é ignorar as noções de tendências no mundo da arte e colocar por terra muita obra boa que seguiu, no seu contexto, tendências dentro do seu nicho. E a segunda, se o jornalista entende isso e por motivos pessoais quer desmerecer a arte no país... hum...
Retornamos ao que a grande mídia e a mídia alternativa acaba fazendo: enquanto o cenário político institucional é pregado de forma superficial para que o brasileiro mediano pouco entenda; enquanto as noções de violência, moral e ética é pregada de forma sensacionalista e fundamentalista pela grande mídia. Enfim, enquanto tudo isso destrói a sociedade em sua base, a destruindo intelectualmente, fomentando conceitos de moral, ética e civilidade superficiais e subjetivos. Tantas outras mídias, como a de entretenimento, segue desvalorizando a produção cultural nacional, o que fragmenta ainda mais a nação, o que continua a enfatizar a síndrome de vira-lata. Independentemente, de gostar ou não da cultura pop, desmerecer, ser indiferente ou fomentar críticas negativas a respeito da nossa produção cultural, quando ela é feita com seriedade, mantem na mentalidade coletiva desse país a ideia de que somos ruins, de que ainda somos o tal do terceiro mundo...
o espaço na mídia é quase zero. por isso, falamos aqui. estamos de olho!