sábado, 11 de fevereiro de 2012

A Garota que Girou os Lenços.

Não fui eu quem a colocou lá, já me sinto absorvido só pelo fato de nem mesmo tê-la conhecido em alguma época da minha vida. Quem a colocou lá também não foi a sociedade cruel e hierárquica que as pessoas pregam, nem mesmo o sistema capitalista tem culpa. Mas, ela estava lá, com suor na testa, pele queimada pelo sol, dreads nos cabelos e um sorriso lindo no rosto (Porque disse lindo, não disse verdadeiro.), ela mesma se colocou lá, talvez com suas escolhas, seus caminhos e suas influências.
O que ocorrera naquele instante em que parei na pista ao lado e olhei para o semáforo foi decisivo. Era ela girando lenços cor de rosa-choque, era ela bailando com uma delicadeza imprevisível, vestindo saia de pregas e com uma flexibilidade ingênua nas pernas. Seus movimentos eram doces e seu ânimo era superior, ela não parou durante os 72 segundos, os lenços faziam dela uma pessoa maior, ela se tornara superior, seus movimentos a tornaram divina e com toda a sua elegância finalizou o ato com os lenços caindo leves ao seu redor. Depois do espetáculo ao sol, nenhum aplauso, ninguém ficou de pé, apenas buzinaram incessantemente pedindo a abertura da passagem para a grandeza daquela garota, que não ganhou nenhum centavo pela sua apresentação, mesmo sendo grandiosa. Mas por quê? Por que ninguém pagou pelo espetáculo? Seria porque ela estava com dreads? Ou sentiram nojo da sua testa escorrendo suor o suficiente pra encher uma piscina? Não entende porque não deram nada a garota que girou tão bem aqueles lenços. Por fim, a artista dos lenços se sentou à sombra para esperar seu próximo espetáculo, expectante de atenção e reconhecimento dessa vez. Vendo a garota dos lenços rosa-choque, pensei em mim, no quanto me proponho a escrever, refletir e dividir com os demais minhas reflexões e no quanto nós blogueiros nos parecemos com a geração mimeografa, poucos dão algum valor.
Escrever nos faz ouvir o inconsciente com mais atenção!